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Coleção Alumiar, por Santídio Pereira | 55design na SP-Arte 2026

  • 15 de abr.
  • 10 min de leitura

A SP-Arte é, há anos, um dos palcos mais significativos da trajetória da 55design. Mais do que uma feira, ela representa para a marca um espaço de diálogo entre o design de mobiliário e o campo artístico – um lugar onde peças ganham contexto, onde narrativas se formam e onde a brasilidade se manifesta em suas múltiplas linguagens. A cada edição, a 55design chega com uma proposta autoral e inédita, firmando o compromisso de que seus móveis não são apenas objetos funcionais, mas expressões culturais que atravessam o tempo.


Agora, em 2026, é tempo de Alumiar.


Alumiar nasce de uma memória de infância. O bisavô de Santídio Pereira contava ao neto uma história que nunca o abandonou: a Terra, nessa recordação, era coberta por um couro perfurado, por onde a luz atravessava e iluminava o mundo. Anos depois, o artista – xilogravador, gravurista e pintor nascido no interior do Piauí, representado pela Galeria Estação – retorna a essa imagem e a transforma em matéria. É dessa transformação que surge sua coleção em colaboração com a 55design apresentada na SP-Arte 2026, com curadoria de Clarissa Schneider. Nela, peças do portfólio 55 em edição limitada e exclusiva recebem a intervenção autoral de Santídio – por meio de bordados, aplicações de couro sobrepostas e incisões –, cruzando as fronteiras entre arte e design.


Confira como foi o evento de lançamento das peças na abertura da feira.



Manifesto Alumiar,

por Clarissa Schneider


O bisavô de Santídio Pereira contava para o neto uma história que nunca o abandonou: a Terra, nessa recordação, era coberta por um couro perfurado, por onde a luz atravessava e alumiava o mundo. A infância guardou essa visão como uma memória para ser revelada anos depois, quando o artista piauiense retorna a essa imagem e a transforma em matéria.

Nasce assim a exposição Alumiar, uma coleção criada em parceria com a 55design. Trabalhos conhecidos do repertório da marca recebem a intervenção de Santídio, cruzando fronteiras entre arte e design sob uma lógica tridimensional que pensa o espaço como campo sensível. Bruno de Carvalho, designer da 55design, colaborou de forma que o artista imprimisse sua linguagem nos móveis da casa, abrindo estrutura e superfície para o gesto autoral.


A natureza, da vegetação ao firmamento, reaparece como território simbólico. São temas recorrentes da obra do artista que foram agora deslocados para o mobiliário. Cada trabalho sugere uma reflexão sobre como habitamos o espaço e como a luz, real ou imaginada, desenha o que vemos.


Em contraste com essa dimensão expandida, a coleção é limitada. Cada móvel recebe uma intervenção própria, afirmando uma identidade que lhe é particular e convertendo o desenho industrial em narrativa.


Nas poltronas Cabaça e Joaquim, camadas de couro perfuradas criam jogos de sombra e profundidade. A Tati recebe bordados que trazem lembranças e o gesto manual — realizados pelas bordadeiras da ONG Orienta Vida. As bromélias aplicadas no banco Mineral trazem a relação com a natureza. Santídio deseja que cada móvel seja substantivo próprio e não objeto em série.


Para ele, a arte é esse vão por onde entra a luz. Um intervalo que desloca a percepção e acende o pensamento. Se o móvel acolhe o corpo, a intervenção artística toca outra dimensão, aquela que nos lembra que toda matéria pode, também, alumiar.


Com a palavra, Santídio Pereira


Foto: Peu Campos
Foto: Peu Campos

Para conhecer mais sobre o olhar do artista, conversamos com Santídio Pereira em uma entrevista que atravessa seu processo criativo. A seguir, confira o bate-papo na íntegra.


Como o seu trabalho, tradicionalmente bidimensional, se relaciona com o tridimensional?


Embora eu trabalhe com o desenho bidimensional, ele nunca é pensado como algo plano em si. Existe sempre um pensamento tridimensional, no sentido de que esse desenho é feito para ocupar um corpo no espaço. No caso dos móveis, o desenho nasce bidimensional, mas já pensado para se adaptar, envolver e dialogar com um volume tridimensional.


O que muda quando esse desenho passa a ocupar um objeto como uma poltrona?


Muda tudo. No plano, existe apenas a ilusão de profundidade. Quando o desenho passa a ocupar uma poltrona, ele realmente se torna tridimensional. Cada ponto, cada estrela, cada furo é pensado para ocupar um lugar específico naquele corpo — encosto, laterais, curvas, bordas. O universo, o cosmo, faz muito mais sentido quando pensado dessa forma: tridimensional.



Por que o tema do cosmos aparece com tanta força nesses trabalhos?

Porque o cosmos é, por natureza, tridimensional. Ao trabalhar estrelas, astros e objetos celestes sobre um móvel, o desenho deixa de ser apenas imagem e passa a ser experiência espacial. É como se o universo, antes contido no plano, finalmente pudesse existir no espaço.


Você se sente desenhando ou esculpindo quando intervém no móvel?


Eu sinto que estou desenhando — mas um desenho tridimensional. Existe, claro, um pensamento escultórico, especialmente nos furos, nas dobras e nos atravessamentos. Mas como o ato físico de furar e cortar é realizado pela fábrica, eu me concentro mais no desenho que antecede a escultura. É um desenho que depois será esculpido.


Os furos e recortes têm um significado além do estético?


Sim. Eles evocam ideias como dobra do espaço, buracos de minhoca, atravessamentos. Em algumas poltronas, penso como se existissem dois universos paralelos: você entra por um lado e sai por outro. A luz atravessa o móvel, passa pelos furos, criando uma experiência viva, mutável, quase cósmica.


A luz é parte essencial da coleção?


Completamente. Esses móveis são pensados para serem atravessados pela luz. Dependendo da iluminação, o objeto muda. Os furos funcionam como estrelas, galáxias, corpos celestes. A luz não apenas ilumina — ela ativa o móvel.


Existe um limite entre arte e design nesse processo?


Essa fronteira existe mais como construção de mercado do que como prática real. O design está ligado à função, mas o "bonito" — que já é um conceito subjetivo — se aproxima da arte. Quando um objeto funcional desperta memória, emoção, reflexão, ele já ultrapassa o campo estrito do design e entra no território da arte.


O que determina a escolha entre bordar, perfurar ou recortar?


É uma decisão intuitiva, mas nunca aleatória. A escolha nasce da leitura do próprio móvel: sua forma, sua estrutura, sua intenção. Cada objeto "pede" uma linguagem específica. A poltrona Cabaça, por exemplo, pediu o furo sobreposto, quase como uma tela cósmica. Já outras pediram o bordado, o gesto manual, o afeto.


Por que o bordado está tão ligado à ideia de afeto?


Porque bordar é um gesto de cuidado. Costurar, preencher com linha, criar irregularidades naturais da mão — tudo isso carrega presença humana. O bordado não é simétrico, não é industrial. Cada ponto é único. Isso cria uma relação emocional direta com quem se senta, com quem convive com o objeto.



A poltrona Tati é um bom exemplo disso?


Sim. Ela foi pensada como uma poltrona de afeto, de sorte, quase um amuleto. Não é um objeto genérico; é um objeto com nome próprio. Mesmo que existam outras iguais, ela se torna única para quem se relaciona com ela. É o que transforma um substantivo comum em substantivo próprio.


A sua intervenção transforma o móvel em outro objeto?


Sem dúvida. O móvel deixa de ser apenas funcional e passa a carregar camadas simbólicas, emocionais e poéticas. Ele continua sendo usado — sentar, apoiar, conviver — mas também passa a provocar pensamento, memória, sensações.


Existe risco ao interferir em um objeto funcional?


Existe um cuidado necessário, claro, com estrutura e uso. Mas esse risco também é o que abre novas possibilidades de expressão. O objeto deixa de ser neutro. Ele passa a ter voz.


Como você vê a relação entre funcionalidade e subjetividade?


O funcional pertence mais diretamente ao design. O subjetivo — o bonito, o afetivo, o simbólico — se aproxima da arte. Mas um não exclui o outro. Um bom design já carrega arte. O que fazemos aqui é aproximar isso de forma consciente.


O que você espera que o público sinta ao se relacionar com esses móveis?


Que eles despertem algo. Que tragam conforto físico e emocional. Que iluminem memórias, sensações, afetos. Que ajudem a tornar o dia mais leve, mais alegre. É uma tentativa de acariciar o corpo e a alma no mesmo objeto.


Trabalhar com mobiliário abriu novos caminhos para o seu trabalho?

Sim. Abriu muitas possibilidades. Trouxe novas questões sobre tridimensionalidade, luz, corpo e espaço. É um caminho que eu queria explorar há muito tempo e que agora se revelou com clareza.

Por que o título "Alumiar" faz sentido para esse projeto?

Porque fala de luz, de atravessamento, de cuidado. Alumiar é iluminar com delicadeza, como fogo, como estrela, como presença. É exatamente isso que esses objetos tentam fazer: iluminar — não apenas o espaço, mas também quem habita esse espaço.


As peças


Poltrona Fica Cosmos 

Design: Marina Linhares

Intervenções: Santídio Pereira


Inspirado pelas memórias de infância, quando observava o céu estrelado do Piauí, o artista traz bordados que simulam a Via Láctea com abordagem afetiva. Afinal, o ato de bordar é um gesto de cuidado: costurar, preencher com linha, criar irregularidades naturais da mão — tudo isso carrega presença humana, mais especificamente a presença das bordadeiras da ONG Orienta Vida, parceiras neste processo.



No olhar do artista, é a suposta imperfeição do trabalho à mão que torna a obra perfeita e evoca a multiplicidade de quem interage com a linha. Cada ponto é único, não é simétrico, não é industrial. Isso cria uma relação emocional direta com quem se senta e com quem convive com o objeto.


Poltrona Tati Botânica 

Design: Clarissa Schneider 

Intervenções: Santídio Pereira


A poltrona Tati foi pensada para ser um móvel de sorte, quase um amuleto. Com formas orgânicas que insinuam flores e também remetem a trevos, ela traz o cuidado do ato de bordar, todo criado em parceria com as bordadeiras da ONG Orienta Vida. A afetividade se traduz não apenas no entrelaçar das linhas: o próprio design da cadeira faz alusão ao mobiliário das casas de fim de semana onde passamos momentos especiais em família.



Não um objeto genérico, mas com nome próprio. Mesmo que existam outras iguais, torna-se única para quem se relaciona com ela. É o que transforma um substantivo comum em substantivo próprio.


Poltrona Juriti Botânica 

Design: Adalfan Filho 

Intervenções: Santídio Pereira


Com aplicações de couro bordadas em camadas, a poltrona incorpora figuras botânicas recorrentes na obra do artista. Se o design do móvel celebra a fauna brasileira — a juriti é uma pequena ave de aspecto rechonchudo e canto singular que inspira o desenho —, a alusão à flora chega a partir da intervenção do artista.






A proposta de nuances cromáticas uniformes é intencional: uma busca por tirar o ato de ver do automatismo e desanestesiar quem observa o móvel. Boa parte das pessoas tem um olhar cansado; veem, mas não enxergam. É preciso iluminar com delicadeza. Instigar a aproximação por meio da sutileza da arte que toca e abraça o espírito, enquanto o móvel abraça o corpo. Quem se aproximar bem, enxergará — e se sentirá alumiado.


Poltrona Garça Horizonte 

Design: Ilse Lang

Intervenções: Santídio Pereira


Nestas recriações, o artista se apropria da proposta do móvel, que traz camadas de linho e couro no design. Em consonância com o desenho, ele incorpora nuances de couro sobrepostas com silhuetas que remetem às colinas de lugares de afeto para Santídio, como Praia da Baleia, Serra da Bocaina e Serra do Mar.






Enquanto os encaixes montanhosos provocam o olhar, também acalmam: a paleta cromática em ton sur ton imprime harmonia ao resultado da obra. Ainda que repleta de camadas, a poltrona mantém o aspecto longilíneo, como uma elegante garça.


Poltrona Joaquim Cosmos 

Design: Bruno de Carvalho

Intervenções: Santídio Pereira


O bisavô de Santídio Pereira contava para o neto uma história que nunca o abandonou: a Terra, nessa recordação, era coberta por um couro perfurado, por onde a luz atravessava e alumiava o mundo. Inspirado pelas memórias de infância e pela teoria do buraco de minhoca — ou Ponte de Einstein-Rosen, que funciona como um atalho no espaço-tempo, conectando duas regiões distantes ou universos diferentes —, o artista propõe um jogo de luz e sombra que cruza os braços da poltrona, criando uma experiência viva, mutável, quase cósmica.



Com vãos criados minuciosamente a partir da máquina de corte que reproduzem a Via Láctea, simulando estrelas, o móvel é uma busca por aproximação com aquilo que faz parte de nós: o cosmos. Nascido no Piauí, onde observava o céu, o artista hoje transita entre a terra natal e São Paulo. A obra traduz o desejo de reconexão com a natureza, uma vez que a poluição dos grandes centros urbanos afasta a contemplação do olhar que se revigora no encontro com o céu.


Poltrona e puff Cabaça Cosmos 

Design: Nildo José

Intervenções: Santídio Pereira


Nesta obra, designer e artista homenageiam o nordeste brasileiro: enquanto o formato do móvel se inspira na força simbólica da cabaça, a intervenção dos furos revela um couro sobreposto a outro, num resgate às memórias de infância do artista no sertão do Piauí, quando ele observava o céu estrelado e ouvia as histórias contadas pelo bisavô.





Em uma delas, a Terra era coberta por um couro perfurado, por onde a luz atravessava e alumiava o mundo. A partir dos vãos, cria-se um jogo de iluminação escultural, que transforma a esfera bidimensional recorrente nos quadros do artista em tridimensional, aproximando-nos da experiência de percorrer os cosmos. Alumiar é iluminar com delicadeza, como estrela, como presença. É exatamente isso que esses objetos tentam fazer: iluminar — não apenas o espaço, mas também quem habita esse espaço.

No puff Cabaça, o artista desenha, através de furos que fazem alusão às estrelas, a Via Láctea vista de perfil — nas laterais do móvel — e observada de frente — no topo do assento.


Biombo Sylvia Mini Botânica 

Design: Bruno de Carvalho

Intervenções: Santídio Pereira


Conhecido por homenagear figuras que representam o afeto em seus móveis, o designer nesta criação celebra Sylvia, a avó da esposa dele, a também arquiteta Marina Cardoso de Almeida. Os bordados propostos por Santídio tecem mais uma camada de afeto: as linhas percorrem o formato de um milharal — comum e sorgo —, plantação tão importante para a agricultura brasileira.




Entusiasta de formas que remetem à natureza e à brasilidade, o artista aproxima o mobiliário da tapeçaria, apropriando-se dos vãos naturais da palha para propor os bordados criados pelas costureiras da ONG Orienta Vida. Esses pequenos espaços livres entre as tramas permitem que a luz do dia penetre com delicadeza nos ambientes, alumiando-os sutilmente.

Bar Sylvia Mini Botânica — Gramínea e Bromélia

Design: Bruno de Carvalho

Intervenções: Santídio Pereira


Nesta versão, os bordados propostos por Santídio percorrem o formato de uma gramínea, grande família botânica que abraça um enorme número de espécies. Aqui também, os pequenos espaços livres entre as tramas da palha permitem que a luz do dia penetre com delicadeza nos ambientes, alumiando-os sutilmente — um diálogo entre a transparência do material e a força da natureza representada pelas linhas das bordadeiras da ONG Orienta Vida.

Banco Mineral Botânica 

Design: Arthur Casas

Intervenções: Santídio Pereira


Neste móvel, o artista incorpora nuances de couro sobrepostas com silhuetas que remetem às formas das flores. A paleta cromática em camadas ton sur ton insinua o desabrochar dos botões florais, que se abrem junto ao alumiar do dia.









55design na SP-Arte: um breve histórico


Foto: Romulo Fialdini
Foto: Romulo Fialdini

Nossa presença na SP-Arte começou a ser construída com consistência nas últimas edições da feira. Em 2023, o projeto SOMA reuniu nove bancos inspirados na fauna brasileira, concebidos por Rodrigo Oliveira a partir de encontros com o vernáculo indígena Mehinako – uma convergência entre artesanato ancestral e design contemporâneo. 


Foto: Romulo Fialdini
Foto: Romulo Fialdini

No ano seguinte, em 2024, a coleção Cordel trouxe oito aparadores e bares de edição única com superfícies adornadas por matrizes de xilogravura do artista pernambucano J. Borges, com concepção assinada por Bruno de Carvalho — uma homenagem emocionante ao xilogravurista, em um dos seus últimos trabalhos em vida. 


Foto: Romulo Fialdini
Foto: Romulo Fialdini

Já em 2025, foi a vez do artista Vik Muniz estrear no design de mobiliário com a coleção Arquétipos: peças lúdicas e conceituais que dialogaram com a inteligência artificial e o universo da costura, evocando o imaginário das casas de bonecas em escala humana.




 
 
 

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